10 de novembro de 2012

um banco de jardim



um banco que espera que o acaso lhe traga vida. um banco que vive do que os outros lhe pedem. um banco que sempre espera e, quando mais do que um o conhece, em simultâneo, não lhes falha. um banco sempre com espaço para mais um. um banco que guarda segredos e conhece muito de muitos de vós. um banco sem voz, que vazio se sente desprotegido.

chegam eles, de mão dada e de corações quentes. regressam ao sítio que os uniu com o mesmo sorriso que ali esboçaram pela primeira vez. chegam eles e sentam-se. ela cruza as pernas à chinês e ele sorri, aconchegando-se. recordam memórias, falam de projectos futuros, apaixonam-se e desapaixonam-se vezes sem conta num único instante. a mão entrelaçada na outra é complementada pelo abraço apertado que faz parar o tempo. o nevoeiro desaparece deixando ficar a chuva em sua vez. um pingo, dois pingos, três, seis, mais sete pingos que caem intermitentemente. nem eles, nem o banco se apercebem… o tempo parou ali.um minuto, dois, três, cinco minutos… o tempo volta a ganhar vida e a roupa está molhada. levantam-se, viram costas e começam a andar.  não importa o que se passou nesse espaço de tempo, o mundo nem sempre é a casa deles....o mundo nem sempre é a nossa casa.

e o banco lá fica, pacientemente, esperando mais encontros e reencontros, neste ou em qualquer outro mundo.

1 de novembro de 2012

apurar.
aperfeiçoar.
aprimorar.
é a perfeição e a busca ininterrupta pelo seu alcance.
uma correria desmedida pela polidez máxima,
uma fugida a sete pés do sujo, do vulgar.
são os olhos que se fecham para coisas,
 demasiadas coisas.
são os horizontes que se estreitam muito,
e cada vez mais.
são barreiras que impomos,
são limites que estipulamos,
e não devíamos.



28 de outubro de 2012

1/2 cegueira

De resto, se uma cara tem duas metades
- uma bela, outra medrosa -,
os inimigos só vêem o medo
e os amantes, o belo.
São no fundo duas cegueiras
particulares,
especializações que surgem (espontâneas)
em certos instantes.

(in Uma Viagem à Índia, Canto I, estrofe 17; ed. Caminho

13 de outubro de 2012

o dia chegou ao fim

as luzes apagaram. o dia chegou ao fim.
- amanhã há mais.
mas, se o dia chegou ao fim, porque é que o peso dos dias passados me incomoda? se chegou ao fim, não volta à corrida. e, se decide voltar, é porque a teimosia lhe assiste. se calhar volta porque não conseguiu atingir o pódio e, para além da teimosia, também é persistente.
mas se não poderei voltar a viver as horas do dia de ontem, porque razão as horas de ontem se instalam no dia de hoje? e no de amanhã?  é um jogo desequilibrado.
o peso dos dias, o peso das horas, o peso das pessoas dos dias, o peso do peso que fica permanentemente em disputa pelo pódio. o peso dos dias passados que não permite que o dia de hoje se desiniba.
- sinto-me pesada. amanhã começo a dieta.

10 de outubro de 2012

"You become a writer because you need to become a writer - nothing else." Grace Paley