4 de novembro de 2013

cara ou coroa


Era noite, bem de noite, meio da noite e chovia, chovia bem, chovia tanto. A chuva batia com tanta força na claraboia por cima da minha cama que afastou qualquer vestígio de sono. Levantei-me, vesti umas calças e uma camisola por cima das calças e da camisola do pijama, desci as escadas e agarrei o casaco impermeável azul. À saída calcei as botas e agarrei a chave. Desci mais escadas que me levaram à porta da rua, onde enfiei o capuz na cabeça. Chovia tanto e no céu rasgavam relâmpagos com sete segundos de distância de um barulho estrondoso. Não quis saber, limitei-me a andar, sem rumo certo. Estava sujo, tão sujo que a sujidade quase me alcançou por completo… discernir-me de um trapo velho seria uma tarefa difícil. Senti-me sozinho e realmente sujo. Chorei horas a fio, perdendo conta às lágrimas que se misturavam com a chuva e deambulei só.
Num trovão mais intenso olhei o céu e corri, corri muito na direção do som. Dei por mim e ali estava, em frente ao mar. Olhei o céu, olhei o mar, olhei o mar e o céu, num movimento cíclico e repetitivo. Senti o mar tocar-me nos pés. Mas como poderia sentir o mar se todo eu era água? Outro relâmpago e a chuva que se intensificou. Vi o relâmpago ao olhar o céu e uma moeda ao olhar a areia junto do mar. Agarrei-a e, passados os sete segundos não ouvi o barulho estrondoso e imponente, mas sim uma voz feminina e trémula atrás de mim que murmura: cara ou coroa!?
Voltei-me, e ali estava ela, frágil, de casaco azul impermeável e de capuz na cabeça. Estremeci. Corri e ela correu. Larguei a moeda e ela apanhou. Para além de sujo achei-me louco por fugir, mas fugi até que a energia me faltasse. Estava assombrado e cansado. Parei, achando que a tinha despistado. Já não sentia a chuva, e os sons pouco se faziam ouvir. Inspirei e expirei, tentando normalizar a respiração quando, de repente, a ouço de novo: - cara ou coroa!
Enchi-me de coragem, olhei para trás e respondi: Coroa, já que a cara é igual à minha.

Ela sorriu com um ar sereno e, enquanto lançou a moeda ao ar diz – boa escolha, mas não temas mais, não há mais lados para além desses. A não ser que, num segundo lançamento, a moeda permaneça em rodopio constante. Isso sim, seria um processo de difícil habituação.

(premissa criativa: Um homem vê na rua, alguém exactamente igual a si – mas do sexo oposto)

23 de outubro de 2013

linguagem violenta

Linguagem violenta: a única. 
A outra é: Sedução ou Submissão. 
Ou seja, o mesmo medo: recear estar só. 
Quando se fala, fala-se. No alto da matéria e do espirito. 

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

13 de outubro de 2013

desafio criativo - sonho.

sonho-te,
em contornos perfeitos,
em gestos sem preconceitos.
sem medidas,
sem rotinas,
sem religião nem doutrinas.

sonho-te,
e em todos eles, sem excepção,
és repetição,
tentação,
repetição,
atracção,
repetição.

sonho-te,
em contornos perfeitos,
em gestos sem preconceitos.
sem medidas,
sem rotinas,
sem religião, nem doutrinas.

sonho-te em repetição
querendo-te por antecipação, 
sabendo que, ao acordar, serás apenas contradição.

Acordo e és o sonho desfeito,
na contramão dos meus dias.
és tudo o que não és quando te sonho:
não és nada nem ninguém.

diz-me só, quando adormeces?!
estou exausta de tanto vaivém.



31 de julho de 2013

histórias d'O indivíduo

era só mais um indivíduo, no meio de tantos outros desvairados, que se veio a tornar O indivíduo, o responsável por desconstruir todas as crenças banais. e O indíviduo todos os dias, sem excepção, passeava pelas ruas de lisboa com o único objetivo de transmitir a sua arte.
é parte integral da condição humana tornar o inacreditável acreditável, ouviste jovem?
estranhei a abordagem desligada de boas maneiras e preocupada apenas com a mensagem. fingi não ouvir, segui o meu caminho não conseguindo não pensar.
é parte integral da condição humana tornar o impossível possível, ouviste jovem?
é parte integral da condição humana tornar o sobrenatural natural, ouviste jovem?
é parte integral da condição humana tornar o lógico ilógico, o mágico mundano, retirar prazer do desprazer, ouviste bem? 
habituei-me à sua presença e comecei a procurá-lo todos os dias, também eu sem excepção.
encontras conforto no desconforto, sabias?
encontras agradabilidade no desagradável, já to disse?
era isto, uma frase, uma simples frase dita a cada novo dia que passava. e ecoava em mim, obrigando-me a questionar minha tão aclamada zona de conforto.
saboreia o dissabor e encoraja-te perante o desencorajador.
comecei a sentir-me familiarizada com as pessoas que, assim como eu, todos os dias esperavam o desvairado que se tornou O indivíduo para muitos.
acredita deslumbradamente, tudo é mágico, tudo é magnífico.
foi esta a sua última frase. com isto desapareceu, mas todos os dias, sem excepção, sorrio às pessoas que, como eu, continuam à sua procura, não querendo deixar de pensar,questionar, viver.









8 de julho de 2013

passo inseguro

vou caminhando sem rumo certo. vou pelas ruas repletas de calçada insegura, evitando tropeçar no alvoroço. vou certa, ainda que sem rumo. vou caminhando em jardins com sol de fim de tarde e calor de meio dia. vou caminhando em noites escuras com cheiro a verão e em areia fina que escapa entre os dedos. vou certa, ainda que sem rumo. e sempre chego. e chego certa.