10 de novembro de 2013

como outras banalidades

sei o trânsito e todos os sinais vermelhos com que me irei cruzar no dia seguinte. sei o preciso momento em que a sombra no meu quarto será maior do que o pedaço de sol que atravessa as janelas. especulo sobre os capítulos seguintes do livro que leio, mesmo antes de lá chegar.
não sei a hora certa, segundos depois de ter olhado o relógio. não sei o que almocei ontem,nem o que o noticiário me disse há pouco. não me interessam os dizeres e os pensares sem fundamento, ou os dizeres e pensares mascarados de fundamento sem conteúdo algum.
sou, portanto, dessincronizada das banalidades.

4 de novembro de 2013

cara ou coroa


Era noite, bem de noite, meio da noite e chovia, chovia bem, chovia tanto. A chuva batia com tanta força na claraboia por cima da minha cama que afastou qualquer vestígio de sono. Levantei-me, vesti umas calças e uma camisola por cima das calças e da camisola do pijama, desci as escadas e agarrei o casaco impermeável azul. À saída calcei as botas e agarrei a chave. Desci mais escadas que me levaram à porta da rua, onde enfiei o capuz na cabeça. Chovia tanto e no céu rasgavam relâmpagos com sete segundos de distância de um barulho estrondoso. Não quis saber, limitei-me a andar, sem rumo certo. Estava sujo, tão sujo que a sujidade quase me alcançou por completo… discernir-me de um trapo velho seria uma tarefa difícil. Senti-me sozinho e realmente sujo. Chorei horas a fio, perdendo conta às lágrimas que se misturavam com a chuva e deambulei só.
Num trovão mais intenso olhei o céu e corri, corri muito na direção do som. Dei por mim e ali estava, em frente ao mar. Olhei o céu, olhei o mar, olhei o mar e o céu, num movimento cíclico e repetitivo. Senti o mar tocar-me nos pés. Mas como poderia sentir o mar se todo eu era água? Outro relâmpago e a chuva que se intensificou. Vi o relâmpago ao olhar o céu e uma moeda ao olhar a areia junto do mar. Agarrei-a e, passados os sete segundos não ouvi o barulho estrondoso e imponente, mas sim uma voz feminina e trémula atrás de mim que murmura: cara ou coroa!?
Voltei-me, e ali estava ela, frágil, de casaco azul impermeável e de capuz na cabeça. Estremeci. Corri e ela correu. Larguei a moeda e ela apanhou. Para além de sujo achei-me louco por fugir, mas fugi até que a energia me faltasse. Estava assombrado e cansado. Parei, achando que a tinha despistado. Já não sentia a chuva, e os sons pouco se faziam ouvir. Inspirei e expirei, tentando normalizar a respiração quando, de repente, a ouço de novo: - cara ou coroa!
Enchi-me de coragem, olhei para trás e respondi: Coroa, já que a cara é igual à minha.

Ela sorriu com um ar sereno e, enquanto lançou a moeda ao ar diz – boa escolha, mas não temas mais, não há mais lados para além desses. A não ser que, num segundo lançamento, a moeda permaneça em rodopio constante. Isso sim, seria um processo de difícil habituação.

(premissa criativa: Um homem vê na rua, alguém exactamente igual a si – mas do sexo oposto)

23 de outubro de 2013

linguagem violenta

Linguagem violenta: a única. 
A outra é: Sedução ou Submissão. 
Ou seja, o mesmo medo: recear estar só. 
Quando se fala, fala-se. No alto da matéria e do espirito. 

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

13 de outubro de 2013

desafio criativo - sonho.

sonho-te,
em contornos perfeitos,
em gestos sem preconceitos.
sem medidas,
sem rotinas,
sem religião nem doutrinas.

sonho-te,
e em todos eles, sem excepção,
és repetição,
tentação,
repetição,
atracção,
repetição.

sonho-te,
em contornos perfeitos,
em gestos sem preconceitos.
sem medidas,
sem rotinas,
sem religião, nem doutrinas.

sonho-te em repetição
querendo-te por antecipação, 
sabendo que, ao acordar, serás apenas contradição.

Acordo e és o sonho desfeito,
na contramão dos meus dias.
és tudo o que não és quando te sonho:
não és nada nem ninguém.

diz-me só, quando adormeces?!
estou exausta de tanto vaivém.



31 de julho de 2013

histórias d'O indivíduo

era só mais um indivíduo, no meio de tantos outros desvairados, que se veio a tornar O indivíduo, o responsável por desconstruir todas as crenças banais. e O indíviduo todos os dias, sem excepção, passeava pelas ruas de lisboa com o único objetivo de transmitir a sua arte.
é parte integral da condição humana tornar o inacreditável acreditável, ouviste jovem?
estranhei a abordagem desligada de boas maneiras e preocupada apenas com a mensagem. fingi não ouvir, segui o meu caminho não conseguindo não pensar.
é parte integral da condição humana tornar o impossível possível, ouviste jovem?
é parte integral da condição humana tornar o sobrenatural natural, ouviste jovem?
é parte integral da condição humana tornar o lógico ilógico, o mágico mundano, retirar prazer do desprazer, ouviste bem? 
habituei-me à sua presença e comecei a procurá-lo todos os dias, também eu sem excepção.
encontras conforto no desconforto, sabias?
encontras agradabilidade no desagradável, já to disse?
era isto, uma frase, uma simples frase dita a cada novo dia que passava. e ecoava em mim, obrigando-me a questionar minha tão aclamada zona de conforto.
saboreia o dissabor e encoraja-te perante o desencorajador.
comecei a sentir-me familiarizada com as pessoas que, assim como eu, todos os dias esperavam o desvairado que se tornou O indivíduo para muitos.
acredita deslumbradamente, tudo é mágico, tudo é magnífico.
foi esta a sua última frase. com isto desapareceu, mas todos os dias, sem excepção, sorrio às pessoas que, como eu, continuam à sua procura, não querendo deixar de pensar,questionar, viver.