21 de agosto de 2014

câmara lenta


escrevo dez linhas para, depois disso, as transformar numa frase e, depois disso, a resumir a uma palavra...uma única palavra.
agarro na palavra e volto a escrever dez linhas, depois disso, volto a escrever uma só frase, resultando numa só palavra...diferente da inicial.
de dez linhas a uma frase, de uma frase a uma palavra.
de uma palavra a dez novas linhas, de dez novas linhas a uma nova frase, de uma nova frase a uma nova palavra.

decomposição, desconstrução e repetição. são avanços, em câmara lenta.

porque andar para a frente implica saber o que fica para trás e ter pressa leva a pontos finais fora de tempo.


 'as minhas dúvidas formam um sistema', escreveu Wittgenstein."

17 de julho de 2014

velocímetro humano

a velocidade do indivíduo é uma questão de perspetiva. não temos um velocímetro incutido no nosso organismo ou, se o temos, não está sujeito a peritagens regulares estabelecidas por regras universais. o ritmo ao qual nos impomos deve sobrepor o ritmo que naturalmente nos guia? chegar o mais-breve-possível-ao-virar-da-esquina é assim tão importante? ou o que importa é o final da estrada? posso decidir correr e chegar mais rápido (estando inerente o risco de perceber erradamente a meta e chegar primeiro sim, mas ao sítio errado), posso abrandar o passo de forma a ajustar a minha velocidade à de outros, posso atrasar o passo e seguir o rumo que mais me convém, posso cortar caminho, posso vendar os olhos e ir sem destino. na realidade, posso tudo se não houver controlo do desconforto.

em boa e curta verdade, a velocidade gira em torno da tua sincronização e dessincronização com os outros e contigo mesmo. e, por muito que tentes, nunca irás saber a velocidade exata que percorres, nem que os outros percorrem, nem que tencionas correr. o problema (ou a virtude) do código do velocímetro humano é a inexistência de sinalização.

13 de maio de 2014

histórias d'O indivíduo

são 4 belas paredes onde o vazio se torna imperativo. branco sobre branco, onde a única prova que o homem la coabitou é o chão sujo. o ser humano é imundo e prova disso é que tudo em que toca, ora destrói, ora distorce, ora corrompe. o chão estava sujo e as paredes davam a sensação de que se entrava num novo mundo.
o que pensa estar a ver não é o que na realidade os outros vêem. está em entre quatro paredes e o chão sujo. o tecto? não existe, é a céu aberto. como poderão as paredes sobreviver à chuva? ao sol? se te digo que o que eu vejo os outros não alcançam, digo verdade. e se te digo isso a ti, é só porque sei que chegará o dia em que verás o mesmo que eu vejo. louco? não sou louco, louco é o mundo que nós reconstruímos. estas quatro paredes são a prova. nada lhes faço após a indecência  humana de as construir. dei-lhes luz, dei-lhes luares, dei-lhes água, e até mesmo um pouco de nevoeiro, para que se pudessem abstrair da existência de três réplicas. estas quatro paredes surgiram sem que a sua voz fosse ouvida, são o fruto de uma noite de sexo fugaz e irracional, cujo amor tirou folga, mas a sua concepção não. são o resultado da inconsciência e grande insensibilidade do ser humano, que nada mais quer para além de conservar o seu umbigo. estas quatro paredes são, agora, amadas e tratadas. adoptei-as, sem burocracias e avaliações de nada nem ninguém, pois não deixei espaço para coisas inútes. como pode alguém decidir o que devo ou não devo adquirir se tudo aquilo que pisamos não nos pertence?  pois bem, estou só a jogar o vosso jogo. estas quatro paredes são minhas, e se achas que o tecto está sobre elas, estás enganada. e se achas que o chão está sujo, estás certa. sujaste-o à entrada.

não vou sair. aqui tenho tudo aquilo que quero e protejo-me de tudo aquilo que me enoja. a minha imaginação, as minhas quatro paredes, e o pedaço de céu que acidentalmente coincide com o meu ângulo de visão. é tudo o que preciso e somente aquilo que quero que me acompanhe. o chão é uma consequência. 

pudesse eu levitar.

6 de maio de 2014

equilíbrio demente

tropeçar nos vazios que se julgam arrumados e esquecidos.
mas um vazio não se arruma, muito menos faz tropeçar.
tropeçar na vontade de preencher o vazio que persistentemente paira sobre os sítios, sempre desacertados.
poderá tratar-se de uma sobrelotação de determinados lugares sobre a escassez de outros, ou então são as vontades que escolhem lugares de primeira classe, negando-se ao desconforto e à solidão, e logo se apinham, umas sobre as outras, tornando o discernimento inexequível – todas no mesmo saco.

dos vazios sabe-se que são desprivilegiados e insensatos e das vontades que são demasiado comodistas. e é ser metade vontade que extravasa e metade um vazio que nunca se completa – o aclamado equilíbrio demente das coisas.

3 de abril de 2014

vai até um bar pede uma queda

reflexos consecutivos de ações inconsequentes, artimanhas de discursos sempre pensentes.
o ontem que nunca mais passa, o futuro que nunca mais vem.
a corda bamba dos dias que correm desiguais.
não te deixes cair e, se caíres, que seja por livre e espontânea vontade.
vai até um bar e pede uma queda, surpreenderás o funcionário mas, em real verdade, acabará por te satisfazer  o pedido.
um buraco que se abre, um poço bem fundo.
uma queda pedida, uma queda entregue.
no final pagas a conta, tapas o buraco e vens-te embora.

a isto se chama controlo extremo (até mesmo do descontrolo).