20 de outubro de 2015

ode aos dias passados

contar o tempo pela norma enquanto se gosta sem fronteiras é um desafio.
os 365 dias volvidos reduzem-se, hoje, a uma contagem ínfima – e é tão desproporcional esta redução de escala.
ano 1.
o pedido acercou sem aviso prévio, o teu colo foi a casa e, com um segredo sussurrado, vi a vontade, senti a vontade, quis a vontade de um compromisso. quis mais, quis cada vez mais. as consequências perderam peso, o querer tornou-se imperativo.
dizem os poetas que o amor pode ter formas estranhas, mas ver em ti refletida a forma exata do que procuro sem que, ainda assim, o consiga descrever, é transcendente.
hoje não me acuso poeta, nem te escrevo a rimar.
hoje digo o que sinto, e que vieste para fica
r.


18 de outubro de 2015

diz-me em que estás a pensar

crês que o que escrevo tem o propósito de te regalar, comover;
crês nas palavras com destino certo;
mas as palavras que debito nem a mim pertencem;
a não ser nos breves instantes em que as escrevo e quando, tola e brevemente, acredito dar sentido à amálgama de perguntas que me (per)seguem.
epifania escassa traduzida numa espontaneidade fluída - o deslumbrar dos meus sentidos transcritos num abc universal.
não sei se te escrevo, se me escrevo, se te comovo, se te ocupo, se me lês, se me lembro do que aqui debito.

e atrai-me esta ignorância, circunstância e todas as reticências passíveis, possíveis.

13 de setembro de 2015

outras sensações

os acontecimentos interiores nada são para além de sensações, e por muito que essas sensações se preencham de outros - dos terceiros e quartos com quem nos vamos cruzando - nunca deixarão de ser uma idealização do que esses tais são para nós - ideias ora fantasmagóricas, ora fantasiosas. 

sentes-te triste, mas não consegues precisar em que sítio do teu corpo essa sensação ocorre. coração apertado? isso é real? ou apenas um sentido metafórico e um modo de te tranquilizares por teres dado casa à sensação?
estás no banco de jardim, tanto a pessoa que te acompanha quanto o local escolhido deixam-te feliz. voltas a casa, sem a pessoa e sem o banco de jardim - mas continuas feliz. que parte do teu corpo serve de abrigo? fantasia-se dizendo que as borboletas aparecem, ora no estômago, ora na barriga - voos mais ou menos limitados dentro do teu  próprio organismo - deixá-las voar apenas dentro do teu estômago é bastante mais limitador do que pela barriga inteira (dependerá do grau de felicidade sentido?).
intrigante, nunca foi claro para mim que a anatomia humana continha casulos.




21 de julho de 2015

organismo certo

Às incertezas tratarei de as jogar pela janela, como quem sacode a toalha depois do pequeno-almoço.
As migalhas de pão, por muito pequenas que sejam, incomodam sempre.
O mesmo com as incertezas – se não tratamos delas atempadamente, entranham-se de tal modo que nem uma lavagem a alta temperatura é capaz de remover a nódoa.
Deste modo, as incertezas serão sempre tratadas com urgência, como uma ambulância em marcha acelerada em direção ao hospital das dúvidas.
Assim que lá cheguem, terão aplicada a terapia exata para a sua imediata expulsão do organismo.

Um organismo certo equivale a uma sobrevivência digna.




16 de julho de 2015

fuga

podemos fugir daquilo que realmente nos move, podemos crer que um caminho paralelo faz sentido.
o jogo seguro, a vida segura, as decisões salvaguardadas em caso de catástrofe.
mas a fuga, segura ou não, nunca perderá o seu estatuto - acto de evitar algo.
e fugir uma vida inteira não permitirá que toda essa vida seja plena.
despistam-se vontades com relativa facilidade, mas estas vão-se acumulando, pesando... tornando todo o caminho muito mais penoso.
surgem os desejos que se esquivam por imposição quase salazarista do lado racional.
segue-se o padrão. hierarquizam-se necessidades segundo a norma - fisiológicas, segurança, sociais, estima, realização pessoal.
norma, seguir a norma, o estatuto... fugir de nós mesmos.
mas há os inconformados, os que, à parte das pressões impostas por eles mesmos, não conseguem deixar de sonhar. e estes, mais cedo ou mais tarde, percebem que a ausência prolongada da sua essência, apenas reforça a sua real vontade.
percebem que há necessidades que se tornam fisiológicas não o sendo, e a ausência destas trazem consequências tão graves quanto uma greve de fome ou três noites sem dormir.
e, quando chega a consciência dessa realidade, as pernas negam-se a mover.. a corrida sem propósito chega ao fim.