5 de setembro de 2016

perda

I


a caneta fica sem tinta
e perde o seu propósito,
esgotou o número de letras disponíveis
ganha por isso um novo lugar
sai do estojo 
e passa à quase misericordiosa gaveta -
a guardiã dos bens não essenciais.
o último lugar digno de um objeto
sabemos que existe,
e onde está,
mas não o vês há demasiado tempo.

inconscientemente nutrimos de um certo afeto pelos bens materiais,
pelo menos afeto suficiente para tardar no adeus definitivo -
chamado caixote do lixo

perda temporária. - preparação para o adeus sem volta


 II


perdemos alguém pelo caminho -
chamado vida
ou esse alguém perdeu-se de tal modo dele mesmo,
que se afastou dos demais.
não importa,
caso queiras,
e agora ao longe,
continuas a vê-lo deambular
adormece atormentado
acorda entorpecido
ora cai
ora se levanta
há dias em que tropeça
tamanha a embriaguez,
estupidez

a miopia pode distorcer a visão,
principalmente se a distância se impõe
mas não te cega
não te impede de ver
fazendo assim da perda de alguém 
uma perda não absoluta



31 de agosto de 2016

#

'nas palavras que entram pela água, contrariando a natureza, escreveremos a nossa história',
dizias-me tu.
e tinhas razão.

sempre me disseste que gostarias de descer as colinas de lisboa às cambalhotas
e que estas deviam ser feitas de areia.
e tinhas razão.

sempre me disseste que gostavas de andar de chinelos
e que o engraxador nunca te poderia dar graxa.
tinhas razão.


é, 
razão nunca te faltou, 
mas sabes,
hoje a maré está alta,
as palavras flutuam
e até o engraxador massaja pés.


7 de junho de 2016

olho-de-bolso

conseguir parar o mundo, minto, conseguir parar parte do teu mundo, pois suspender o mundo que também é dos outros acarretará demasiadas responsabilidades e sequelas.
transportar um olho-de-bolso, com uma objetiva hipotética, capaz de estagnar o momento, qualquer que seja, por um período de tempo previamente estabelecido.

não falo sobre tecnologia, nem registo de uma imagem ou vídeo acessível durante 5 segundos na tua memória virtual. Falo da importância em saber ver, querer contemplar e apreciar o teu mundo numa pausa. Compreender trazendo o exterior para dentro, deixarmo-nos maquilhar pelas coisas que observamos ao detalhe. 


10 de maio de 2016

bê-á-bá


nem todas as palavras se pronunciam com a mesma facilidade. nem todas as palavras se usam com a mesma regularidade. não é a complexidade do léxico, nem são as palavras difíceis.
é a frequência, o tom e a intensidade escolhida no uso de determinados vocábulos, aqueles simples, quase onomatopeicos. 
são esses que ditam muito daquilo que somos, muito daquilo que fazemos, o que ambicionamos e o que, efetivamente, alcançamos.

o resto é tagarelice, paleio e lengalenga que enche, satura, entretém. não é o espelho do que somos. 
não procures as palavras certas, nem proclames meias palavras que te saltam da ponta da língua, essas tendem a ser a nossa condenação.




24 de janeiro de 2016

meia luz de inverno

headphones nos ouvidos, mochila às costas e a chave no bolso – a  ignição para que o meu corpo se ponha em andamento por aí. balanço ao ritmo dos acordes, ora não fossem eles pensados para esse mesmo efeito. são ruas, recantos e rostos à meia luz de um domingo de inverno. 
a luz muda as pessoas e as pessoas mudam o espaço. e é nesta dessincronização que divago, na brisa de mais um dia frio com o sol à espreita - o (des)ritmo animado da vida.