a ausência é rude mas essencial.
a distância é cruel mas necessária.
a saudade é suicida e magoa.
temos a ausência sem a distância,
que dificilmente conseguimos gerir.
é o corpo presente onde os olhares não mais se cruzam,
onde os sorrisos não mais se partilham.
e ali está,
aparentemente à distância de um esticar de braço,
tudo aquilo que não mais alcançaremos.
temos a ausência com distância,
onde o mau estar se acentua prematuramente,
onde tudo aquilo que vemos não é nada mais do que uma miragem,
uma imagem distorcida do que um dia foi realidade.
temos a saudade,
infeliz saudade,
consequência da ausência,
consequência da distância.
temos a saudade,
que nada mais é para além de um buraco para onde atiramos tudo aquilo que nos faz falta.
um buraco alimentado de passado e de memórias.
temos a saudade,
onde se torna problemática a distinção entre um passado que alimentámos e não queremos viver,
e um passado que estupidamente deixámos morrer à fome e nada mais podemos fazer para inverter a catástrofe.
29 de agosto de 2012
12 de agosto de 2012
opposite direction
as auto-estradas não me caem em graça. caminho monótono, velocidade excessiva que, ao mínimo momento distractivo, pode ter um final nada agradável. prefiro as curvas, seguidas de contracurvas, onde a atenção é indispensável, a velocidade é moderada e o sítio ao qual nos levam tem sempre mais interesse.
no entanto, há dias em que queremos chegar o mais rápido possível ao sítio onde nos esperam. e nada melhor a fazer nesses dias, do que esquecer o carro e optar pelo avião (na direcção oposta).
22 de julho de 2012
economizador de impulsos
é muito mesquinho.
gosta dos livros no sítio certo, do chão sem migalhas, da roupa lavada e dos sítios do costume. não gosta de atrasos e não perdoa facilmente. se não gosta ou, se alguma coisa lhe faz comichão, não se cala. não tem um saco que possa encher, nem o copo que possa transbordar com aquela última gota de água. é um ser sem depósito de opiniões. um profeta dos seus pontos de vista.
não tenho papas-na-língua, não fazendo isso de mim má pessoa. não contesto quando não tenho razão. tudo bem que a minha razão só a mim me pertence mas, torna-se mais minha razão quando a faço ser a razão ou não-razão dos outros. não vou guardar para mim uma coisa que me pode pesar as costas, gosto de andar de mãos a abanar e de cabeça erguida. não quero com isto, passar o peso para os outros. mas, na real verdade, nunca fui bom economizador de impulsos.
19 de julho de 2012
rés-do-chão a meia luz
lá na rua onde mora, a noite traz aventuras estranhas. da sua janela do rés-do-chão entreaberta, com a luz do candeeiro acesa, la está ele, todos os dias e à mesma hora a assistir a autênticos filmes de acção, comédias românticas e dramas. são os carros que passam, os carros que chegam mas não passam e param, os carros que se enchem de pessoas, os carros com os vidros abertos e os outros que nada deixam ver. para além dos carros, e das pessoas que os carros levam, estão outros cujo seu transporte nada mais é do que os próprios pés mas,de quando em quando, trazem um cão como bengala. às vezes vêm aos pares, outras não. às vezes falam quando estão sozinhos e mantêm o silêncio quando têm companhia.
(e o que fará ele com a janela entreaberta?) ele observa, resolve o que para ele são enigmas e especula, especula muito. é como uma pastilha elástica para o cérebro, mantém-no entretido. depois da recolha da informação,senta-se no seu sofá e, mantendo a meia luz, transforma as suas fantasias em letras, escritas uma a uma, descrevendo detalhadamente tudo o que a noite no rés-do-chão, de janela entreaberta e sala a meia luz, o permitiu ver. no final bebe um copo com leite,escova os dentes e vai dormir. na verdade, é um rés-do-chão como qualquer outro, mas há dias em que a imaginação precisa do estímulo certo. o dele é a noite e o movimento da sua rua. já o da vizinha do lado, é ver a telenovela. e o do 4º andar, ó (!), o do 4º andar é louco, diz o homem do copo de leite. nem bom dia, nem boa tarde, nem boa noite e a janela para este lado da rua?! nem sabes.. está sempre fechada.
13 de julho de 2012
ironia.
a vida é irónica,não a consigo ver de outra
forma. já não se trocam apenas as roupas, nem os lençóis de cama,agora
invertem-se papéis com tanta ou mais frequência do que a própria troca de
roupa. num instante remoto somos papel principal passando, quase que em
simultâneo, para figurante de cena. somos ‘o todo, num instante’, efémero. deambulamos
de um lado para o outro, com rumo incerto mas, ainda assim, convencidos de que
aquele é o caminho que queremos cruzar. somos camaleões sorrateiros, por vezes
destemidos, quando nos tentamos camuflar no absurdo, cativados pela curiosidade
alheia, pelo risco,pela troca de papéis.
na verdade, cada um de nós descreve o
seu filme enquanto personagem principal, o problema, ou a agradável surpresa, é
quando assumimos presença no filme de outros. são muitos caminhos que se cruzam
e ainda mais aqueles cujo caminho se deveria conjugar de outra forma. são caminhos
que seguem juntos para sempre e outros que seguem rumos diferentes. são caminhos
intermitentes. são caminhos de terra, caminhos com calçada portuguesa, são
caminhos que se cruzam em dias de chuva e de sol. são atalhos. caminhos, todos
eles responsáveis pelo filme de cada um de nós.
o meu filme é diferente, sinto-me a narradora
de todos os caminhos que comigo se cruzam, tendo a particularidade de ter uma
visão global, tornando cada um dos meus passos muito mais meticulosos.
às vezes gosto do meu filme, noutras vezes tenho vontade de mudar o guião.
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