27 de setembro de 2012

a persistência dos pesos.

é pesado.as costas cedem à força sobre elas exercida, o passo diminui, a velocidade abranda. a meta final parece mais longe do que é, na realidade. 
é pesado. as costas começam a doer, as pernas param,a velocidade estanca.
transferiu o peso para o chão e sentou-se ao seu lado.
(sempre gostou da calçada, mesmo em dias de chuva)
as costas já não tinham o peso, mas a sensação continuava lá. 
tentou descansar mas não descansou. não conseguia deixar de olhar para o peso que suportava e que agora  ali estava, aparentemente imóvel e inofensivo, no seu lado direito.
aparentemente imóvel e inofensivo.. as aparências pressionam-nos, bloqueiam-nos.é, as aparências iludem-nos.
levantou-se e deixou o peso para trás. ao fim de uns quantos passos e metros percorridos, falta-lhe o ar, doem-lhe as costas e a velocidade abranda (novamente).
pesos que não nos deixam, mesmo quando os tentamos abandonar.
pelo menos persistência é uma coisa que não lhes falta. 


11 de setembro de 2012

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to look life in the face, always, to look life in the face, and to know it for what it is...at last, to love it for what it is, and then to put it away.” virginia woolf

29 de agosto de 2012

entre a ausência e a distância há sempre uma dose de saudade.

a ausência é rude mas essencial.
a distância é cruel mas necessária.
a saudade é suicida e magoa.

temos a ausência sem a distância,
que dificilmente conseguimos gerir.
é o corpo presente onde os olhares não mais se cruzam,
onde os sorrisos não mais se partilham.
e ali está,
aparentemente à distância de um esticar de braço,
tudo aquilo que não mais alcançaremos.

temos a ausência com distância,
onde o mau estar se acentua prematuramente,
onde tudo aquilo que vemos não é nada mais do que uma miragem,
uma imagem distorcida do que um dia foi realidade.

temos a saudade,
infeliz saudade,
consequência da ausência,
consequência da distância.

temos a saudade,
que nada mais é para além de um buraco para onde atiramos tudo aquilo que nos faz falta.
um buraco alimentado de passado e de memórias.


temos a saudade,
onde se torna problemática a distinção entre um passado que alimentámos e não queremos viver,
e um passado que estupidamente deixámos morrer à fome e nada mais podemos fazer para inverter a catástrofe.





12 de agosto de 2012

opposite direction

as auto-estradas não me caem em graça. caminho monótono, velocidade excessiva que, ao mínimo momento distractivo, pode ter um final nada agradável. prefiro as curvas, seguidas de contracurvas, onde a atenção é indispensável, a velocidade é moderada e o sítio ao qual nos levam tem sempre mais interesse. 
no entanto, há dias em que queremos chegar o mais rápido possível ao sítio onde nos esperam. e nada melhor a fazer nesses dias, do que esquecer o carro e optar pelo avião (na direcção oposta).

22 de julho de 2012

economizador de impulsos

é muito mesquinho.
gosta dos livros no sítio certo, do chão sem migalhas, da roupa lavada e dos sítios do costume. não gosta de atrasos e não perdoa facilmente. se não gosta ou, se alguma coisa lhe faz comichão, não se cala. não tem um saco que possa encher, nem o copo que possa transbordar com aquela última gota de água. é um ser sem depósito de opiniões. um profeta dos seus pontos de vista.
não tenho papas-na-língua, não fazendo isso de mim má pessoa. não contesto quando não tenho razão. tudo bem que a minha razão só a mim me pertence mas, torna-se mais minha razão quando a faço ser a razão ou não-razão dos outros. não vou guardar para mim uma coisa que me pode pesar as costas, gosto de andar de mãos a abanar e de cabeça erguida. não quero com isto, passar o peso para os outros. mas, na real verdade, nunca fui bom economizador de impulsos.