28 de outubro de 2012

1/2 cegueira

De resto, se uma cara tem duas metades
- uma bela, outra medrosa -,
os inimigos só vêem o medo
e os amantes, o belo.
São no fundo duas cegueiras
particulares,
especializações que surgem (espontâneas)
em certos instantes.

(in Uma Viagem à Índia, Canto I, estrofe 17; ed. Caminho

13 de outubro de 2012

o dia chegou ao fim

as luzes apagaram. o dia chegou ao fim.
- amanhã há mais.
mas, se o dia chegou ao fim, porque é que o peso dos dias passados me incomoda? se chegou ao fim, não volta à corrida. e, se decide voltar, é porque a teimosia lhe assiste. se calhar volta porque não conseguiu atingir o pódio e, para além da teimosia, também é persistente.
mas se não poderei voltar a viver as horas do dia de ontem, porque razão as horas de ontem se instalam no dia de hoje? e no de amanhã?  é um jogo desequilibrado.
o peso dos dias, o peso das horas, o peso das pessoas dos dias, o peso do peso que fica permanentemente em disputa pelo pódio. o peso dos dias passados que não permite que o dia de hoje se desiniba.
- sinto-me pesada. amanhã começo a dieta.

10 de outubro de 2012

"You become a writer because you need to become a writer - nothing else." Grace Paley

27 de setembro de 2012

a persistência dos pesos.

é pesado.as costas cedem à força sobre elas exercida, o passo diminui, a velocidade abranda. a meta final parece mais longe do que é, na realidade. 
é pesado. as costas começam a doer, as pernas param,a velocidade estanca.
transferiu o peso para o chão e sentou-se ao seu lado.
(sempre gostou da calçada, mesmo em dias de chuva)
as costas já não tinham o peso, mas a sensação continuava lá. 
tentou descansar mas não descansou. não conseguia deixar de olhar para o peso que suportava e que agora  ali estava, aparentemente imóvel e inofensivo, no seu lado direito.
aparentemente imóvel e inofensivo.. as aparências pressionam-nos, bloqueiam-nos.é, as aparências iludem-nos.
levantou-se e deixou o peso para trás. ao fim de uns quantos passos e metros percorridos, falta-lhe o ar, doem-lhe as costas e a velocidade abranda (novamente).
há pesos que não nos deixam, mesmo quando os tentamos abandonar.
pelo menos persistência é uma coisa que não lhes falta. 


11 de setembro de 2012

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to look life in the face, always, to look life in the face, and to know it for what it is...at last, to love it for what it is, and then to put it away.” virginia woolf