contratempo. deixo-me levar a cada nota tocada, sentindo-a
como minha e parte de mim. deixo-me levar pela espera do regresso, que ainda
não me pertence, mas que sentirei novamente como meu. o silêncio, ansioso. o
silêncio, desejoso. o silêncio, desejado. a neutralidade nua e crua, despida de
rótulos, despida de memórias. aqui, neste espaço onde usufruo enquanto espero,
estou só eu, e as notas que faço questão de ter comigo.
1 de dezembro de 2012
11 de novembro de 2012
10 de novembro de 2012
um banco de jardim
um banco que espera que o acaso lhe traga vida. um banco que vive do
que os outros lhe pedem. um banco que sempre espera e, quando mais do que um o
conhece, em simultâneo, não lhes falha. um banco sempre com espaço para mais um. um banco que guarda segredos e conhece muito
de muitos de vós. um banco sem voz, que vazio se sente desprotegido.
chegam eles, de mão dada e de corações quentes. regressam ao sítio que
os uniu com o mesmo sorriso que ali esboçaram pela primeira vez. chegam eles e
sentam-se. ela cruza as pernas à chinês e ele sorri, aconchegando-se. recordam
memórias, falam de projectos futuros, apaixonam-se e desapaixonam-se vezes sem
conta num único instante. a mão entrelaçada na outra é complementada pelo
abraço apertado que faz parar o tempo. o nevoeiro desaparece deixando ficar a
chuva em sua vez. um pingo, dois pingos, três, seis, mais sete pingos que caem
intermitentemente. nem eles, nem o banco se apercebem… o tempo parou ali.um minuto, dois, três, cinco minutos… o tempo volta a ganhar vida e a
roupa está molhada. levantam-se, viram costas e começam a andar. não importa o que se passou nesse espaço de
tempo, o mundo nem sempre é a casa deles....o mundo nem sempre é a nossa casa.
e o banco lá fica, pacientemente, esperando mais encontros e
reencontros, neste ou em qualquer outro mundo.
1 de novembro de 2012
apurar.
aperfeiçoar.
aprimorar.
é a perfeição e a busca ininterrupta pelo seu alcance.
uma correria desmedida pela polidez máxima,
uma fugida a sete pés do sujo, do vulgar.
são os olhos que se fecham para coisas,
demasiadas coisas.
são os horizontes que se estreitam muito,
e cada vez mais.
são barreiras que impomos,
são limites que estipulamos,
e não devíamos.
aperfeiçoar.
aprimorar.
é a perfeição e a busca ininterrupta pelo seu alcance.
uma correria desmedida pela polidez máxima,
uma fugida a sete pés do sujo, do vulgar.
são os olhos que se fecham para coisas,
demasiadas coisas.
são os horizontes que se estreitam muito,
e cada vez mais.
são barreiras que impomos,
são limites que estipulamos,
e não devíamos.
28 de outubro de 2012
1/2 cegueira
De resto, se uma cara tem duas metades
- uma bela, outra medrosa -,
os inimigos só vêem o medo
e os amantes, o belo.
São no fundo duas cegueiras
particulares,
especializações que surgem (espontâneas)
em certos instantes.
- uma bela, outra medrosa -,
os inimigos só vêem o medo
e os amantes, o belo.
São no fundo duas cegueiras
particulares,
especializações que surgem (espontâneas)
em certos instantes.
(in Uma Viagem à Índia, Canto I, estrofe 17; ed. Caminho
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