reflexos consecutivos de ações inconsequentes, artimanhas de discursos sempre pensentes.
o ontem que nunca mais passa, o futuro que nunca mais vem.
a corda bamba dos dias que correm desiguais.
não te deixes cair e, se caíres, que seja por livre e espontânea vontade.
vai até um bar e pede uma queda, surpreenderás o funcionário mas, em real verdade, acabará por te satisfazer o pedido.
um buraco que se abre, um poço bem fundo.
uma queda pedida, uma queda entregue.
no final pagas a conta, tapas o buraco e vens-te embora.
a isto se chama controlo extremo (até mesmo do descontrolo).
3 de abril de 2014
28 de março de 2014
o artista de circo
e o hábito vem entranhar-se de novo nas minhas palavras. é um dos maiores arruaceiros da minha coerência, das poucas coisas cuja peça raramente encaixa. é traiçoeiro e ilusionista. malabarista e, simultaneamente, trapezista.
não gosto do hábito, nem das manias dele. incomodam-me o sapato, dão-me a falsa estabilidade que tanto rebato e nunca ganho. esse mesmo hábito que se mascara de mil e uma formas, se confunde com o que não pode nem deve ser confundido. esse artista de circo de rua que me entra pela casa sem permissão. não gosto do hábito, nem de falar sobre ele, nem de escrever sobre ele mas, como disse, ele é um fora da lei e eu o seu assalto preferido.
não gosto do hábito, nem das manias dele. incomodam-me o sapato, dão-me a falsa estabilidade que tanto rebato e nunca ganho. esse mesmo hábito que se mascara de mil e uma formas, se confunde com o que não pode nem deve ser confundido. esse artista de circo de rua que me entra pela casa sem permissão. não gosto do hábito, nem de falar sobre ele, nem de escrever sobre ele mas, como disse, ele é um fora da lei e eu o seu assalto preferido.
22 de março de 2014
mão direita
os dedos
trémulos pousados sobre o teclado, o cursor a viajar sobre o botão ENVIAR… o tremor era tanto que levava o cursor insistentemente a desviar-se, sempre antes
do click ser feito. a incapacidade fazia-o sentir-se inútil, mas nunca menos
teimoso, mas nunca menos orgulhoso, mas nunca menos persistente.
ofereci
ajuda, mesmo sabendo que o ‘não, obrigado’ seria garantido. meu dito, meu feito
- limitei-me a assistir.
enquanto não
completava a missão e tentava transmitir ao sistema nervoso central que, a bem
ou a mal, hoje ou amanhã, aquele email seria enviado, aproveitava para reler e
refazer uma ou outra frase cujas palavras não ficaram bem escritas e onde o
sentido se perdera.
voltei a aproximar-me, dei-lhe um beijinho
carinhoso e convenci-o a deixar-me ajudá-lo. finalmente cedeu:
Querida neta,
Sinto muito a tua falta… na verdade, sinto
tanto a tua falta quanto a falta que sinto da minha mão direita. Já sei que te
ris neste momento mas, pensando bem, é uma comparação legítima.
A minha mão continua aqui, agregada ao meu
antebraço, contudo, tem vindo a ganhar autonomia, como se fosse um apêndice do
meu corpo sobre o qual não tenho controlo. Oscilações constantes, movimentos
inesperados e completamente despropositados.
Já tu, continuas aqui, no meu coração, no
entanto, estás aí, do outro lado do atlântico, sozinha, balançante e, acima de
tudo, longe, longe de mim, tão longe que a distância chega a doer, moer,
incomodar.
Tenho saudades, tenho muitas saudades tuas.
Assim como tenho saudades da minha mão, mas essa, essa eu sei que ganhou
autonomia tal que jamais me voltará a agradar. Já tu, minha pequena, tu
enches-me tanto de saudades quanto de orgulho, e por mais que te queira próxima
de mim, nestes meus dias tão longos, não o permitiria. Estás a construir uma
base sólida, com estruturas firmes, diria até que inquebráveis. E esses
alicerces serão cruciais no teu futuro. Por isso, embora veja a minha mão todos
os dias, nela não deposito qualquer confiança, já em ti, que não te vejo há
meses, tenho toda a confiança do mundo certo que continuarás assim, decidida,
lutadora.
Escrevo-te para te agradecer a insistência
em me fazeres tolerar estas novas tecnologias, como vês, consegui fazê-lo – o
email está escrito - uma pequena vitória para mim, uma grande derrota para o
Parkinson.
Fica um beijinho do teu avô e a boa notícia
é que a tua visita está para breve!
"Os dedos trémulos pousados sobre o teclado, o cursor a viajar sobre o botão ENVIAR...”
Continue este texto usando no máximo 400 palavras.
16 de março de 2014
dessincronização voluntária
e, por momentos, tudo é rápido.
o tempo corre, como se o atraso para o segundo seguinte fosse uma constante.
as viagens deixam de ser viagens e passam a ser momentos breves de cegueira que te levam a algum lado, evitando atrasos maiores.
pouco importa o que o comboio te mostra, a velocidade cega-te, torna-te menos curioso.
não importa o caminho,o que queres é chegar.
o perigo, na tua cabeça, só existe quando uma avaria inesperada surge e a linha recta, que te leva ao destino final, fica interrompida durante algum tempo. aí sim, és obrigado a recuperar a visão periférica e a observar o que te circunda, pois o atraso será realmente significativo na tua singular perspectiva de tempo. no entanto, nada podes fazer, nada podes mudar e, pouco depois,conformas-te... nada podes fazer para além de esperar que o tempo se sincronize.
não importa a causa, mas sim o inconveniente causado.
voltas ao teu lugar, sim, inconcebível é sentares-te num lugar não correspondente ao que o teu bilhete te deu - uma lotaria em pequena escala - lugar 113, caruagem 22. podes até ser a única pessoa no comboio, todos os lugares da carruagem podem estar vazios, mas jamais te sentarás na cadeira ao lado.
somos cegos, a visão periférica está a desaparecer e poucos se questionam, é confortável viver conformado. e os conformados parecem gostar das duas palas invisíveis que deturpam o tempo e o espaço.
o tempo corre, como se o atraso para o segundo seguinte fosse uma constante.
as viagens deixam de ser viagens e passam a ser momentos breves de cegueira que te levam a algum lado, evitando atrasos maiores.
pouco importa o que o comboio te mostra, a velocidade cega-te, torna-te menos curioso.
não importa o caminho,o que queres é chegar.
o perigo, na tua cabeça, só existe quando uma avaria inesperada surge e a linha recta, que te leva ao destino final, fica interrompida durante algum tempo. aí sim, és obrigado a recuperar a visão periférica e a observar o que te circunda, pois o atraso será realmente significativo na tua singular perspectiva de tempo. no entanto, nada podes fazer, nada podes mudar e, pouco depois,conformas-te... nada podes fazer para além de esperar que o tempo se sincronize.
não importa a causa, mas sim o inconveniente causado.
voltas ao teu lugar, sim, inconcebível é sentares-te num lugar não correspondente ao que o teu bilhete te deu - uma lotaria em pequena escala - lugar 113, caruagem 22. podes até ser a única pessoa no comboio, todos os lugares da carruagem podem estar vazios, mas jamais te sentarás na cadeira ao lado.
somos cegos, a visão periférica está a desaparecer e poucos se questionam, é confortável viver conformado. e os conformados parecem gostar das duas palas invisíveis que deturpam o tempo e o espaço.
fotografia: laura williams
10 de março de 2014
#cartas para roma
(...)
- lembras-te da sarjeta? foi nela que vi o quão longe pode ir a tua imaginação. agarraste todos os teus comprimidos,e os de todos os teus amigos, e despejaste-os aqui, esperançosa de que chegariam a todas as pessoas doentes, do outro lado do mundo - a eterna sonhadora.
Estiquei o braço para agarrar a mochila que está na outra ponta do banco, sabes que poucas são as coisas que me fazem descruzar as pernas. consegui alcançá-la a custo. abri-a e atirei todos os meus livros para a sarjeta.
- é, está na altura de ler outros livros para que novas histórias se escrevam.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




