31 de agosto de 2016

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'nas palavras que entram pela água, contrariando a natureza, escreveremos a nossa história',
dizias-me tu.
e tinhas razão.

sempre me disseste que gostarias de descer as colinas de lisboa às cambalhotas
e que estas deviam ser feitas de areia.
e tinhas razão.

sempre me disseste que gostavas de andar de chinelos
e que o engraxador nunca te poderia dar graxa.
tinhas razão.


é, 
razão nunca te faltou, 
mas sabes,
hoje a maré está alta,
as palavras flutuam
e até o engraxador massaja pés.


7 de junho de 2016

olho-de-bolso

conseguir parar o mundo, minto, conseguir parar parte do teu mundo, pois suspender o mundo que também é dos outros acarretará demasiadas responsabilidades e sequelas.
transportar um olho-de-bolso, com uma objetiva hipotética, capaz de estagnar o momento, qualquer que seja, por um período de tempo previamente estabelecido.

não falo sobre tecnologia, nem registo de uma imagem ou vídeo acessível durante 5 segundos na tua memória virtual. Falo da importância em saber ver, querer contemplar e apreciar o teu mundo numa pausa. Compreender trazendo o exterior para dentro, deixarmo-nos maquilhar pelas coisas que observamos ao detalhe. 


10 de maio de 2016

bê-á-bá


nem todas as palavras se pronunciam com a mesma facilidade. nem todas as palavras se usam com a mesma regularidade. não é a complexidade do léxico, nem são as palavras difíceis.
é a frequência, o tom e a intensidade escolhida no uso de determinados vocábulos, aqueles simples, quase onomatopeicos. 
são esses que ditam muito daquilo que somos, muito daquilo que fazemos, o que ambicionamos e o que, efetivamente, alcançamos.

o resto é tagarelice, paleio e lengalenga que enche, satura, entretém. não é o espelho do que somos. 
não procures as palavras certas, nem proclames meias palavras que te saltam da ponta da língua, essas tendem a ser a nossa condenação.




24 de janeiro de 2016

meia luz de inverno

headphones nos ouvidos, mochila às costas e a chave no bolso – a  ignição para que o meu corpo se ponha em andamento por aí. balanço ao ritmo dos acordes, ora não fossem eles pensados para esse mesmo efeito. são ruas, recantos e rostos à meia luz de um domingo de inverno. 
a luz muda as pessoas e as pessoas mudam o espaço. e é nesta dessincronização que divago, na brisa de mais um dia frio com o sol à espreita - o (des)ritmo animado da vida.



16 de novembro de 2015

centro

o centro move-se, vai de um lado para o outro, é instável, depende do nosso olhar e da nossa atenção momentânea.
tudo pode ser centro.
manter próximo o máximo de centros relevantes, para que o desvio do que realmente importa seja menor -  contestação constante.