10 de março de 2014

#cartas para roma

(...)

- lembras-te da sarjeta? foi nela que vi o quão longe pode ir a tua imaginação. agarraste todos os teus comprimidos,e os de todos os teus amigos, e despejaste-os aqui, esperançosa de que chegariam a todas as pessoas doentes, do outro lado do mundo - a eterna sonhadora.
Estiquei o braço para agarrar a mochila que está na outra ponta do banco, sabes que poucas são as coisas que me fazem descruzar as pernas. consegui alcançá-la a custo. abri-a e atirei todos os meus livros para a sarjeta.
- é, está na altura de ler outros livros para que novas histórias se escrevam.

31 de janeiro de 2014

um mapa na mão esquerda


um mapa de um sítio qualquer, de um outro pedaço de mundo que não a cidade de lisboa...aliás, agora que me aproximo percebo...é um mapa mundo.
um mapa descontextualizado mas que, ainda assim, tenta ser desvendado, tenta ser útil.
o indivíduo traz o mapa na mão esquerda enquanto sobe e desce da rua da saudade - está à procura de alguma coisa.
é um mapa mundo, como se encaixará ele na cidade? terá lisboa espaço para tanto?
ele acredita que sim.

entra agora numa travessa sem nome nem placa. um espaço não identificado, um espaço que não chegou a ser alguma coisa...e é isso que ele procura. e agora pula de alegria, não querendo saber do mapa amachucado que cai no chão e que é pisado por ele vezes sem conta. há um limoeiro no meio da travessa sem nome, nem mais acima nem mais abaixo...exactamente no meio. trepa a árvore como se fosse realmente preciso, trepa uma árvore que tem o seu tamanho.

um macaco que gosta de limões.

o indivíduo que encontrou no mapa mundo as coordenadas certas para um sítio não identificado, sabendo apenas que lá perto existe uma rua com nome de saudade.

é o indivíduo  numa das suas aventuras,em mais uma das suas histórias.
é o mundo na perspetiva de um louco (aos olhos dos outros).
é o mundo do individuo singular, que não quer ser compreendido, que não pensa em fazer-se compreender, pois já não há paciência para ensinar um monte de sobre-dotados de canudos a pesar as costas.

o indivíduo -  um homo sem qualquer necessidade de ser sapiens.


17 de janeiro de 2014

circunstâncias

é importante organizar as coisas para que as possas chamar na conjugação de qualquer verbo em pretérito perfeito ou imperfeito...pouco importa.
não saber coisa nenhuma, ou desejar qualquer coisa é demasiado vago e não queiramos exacerbar o uso das coisas.
o impreterível aqui é saber e querer arrumar as coisas para que, depois disso, as possas chamar de passado. ..um passado muito mais simplificado.


29 de novembro de 2013

imobilidade aos olhos do mundo

os raios de sol ainda espreitavam timidamente pela janela, querendo certamente passar despercebidos. os meus olhos ainda se queriam manter fechados, ao contrário de todo o meu organismo que desejava encarar o dia. o frio contrariou todas a tentativas de movimentos que não se assemelhassem a um slow motion, sem que fosse sequer necessária a desaceleração da imagem. permaneci imóvel aos olhos do mundo e numa inquietude intensíssima aos meus.
sentir cada movimento microscópico que somos capazes de fazer absorve-me. absorve-me todas as atenções,ao contrário da destreza extrema e veloz de movimentos que, embora fascinantes, ignoram o caminho. 
um estalar de dedos: o polegar e o dedo médio que se encontram na parte interior da mão,o indicador que, com subtileza, se afasta de forma a não incomodar o processo. o mindinho e o anelar que se encostam à palma da mão, enquanto os protagonistas se unem como que um braço de ferro. cada um empurra para o seu lado,para lados opostos, no entanto, e ao contrário das forças que se opõem num braço de ferro, o estalar de dedos precisa desta mesma oposição, deste um-contra-um, para que o som aconteça. 
o espirrar: uma forma irreverente do teu corpo expulsar o dióxido de carbono em excesso. expulsão do ar que, não só tem vontade própria, como implica um encadeamento sequencial de reflexos.a irritação do nariz, inspirar, a epiglote e as cordas vocais que se fecham, a contracção do abdominal e a pressão do diafragma, a epiglote e as cordas vocais que abrem rapidamente, as pálpebras que se fecham e finalmente atchim, atchim, atchim.
a imobilidade aos olhos do mundo perde-se ao primeiro estalar de dedos, ao primeiro espirro...já o processo que levou a esse estalar de dedos e ao primeiro, segundo e terceiro espirro é tão rápido que poucas são as pessoas que o conseguem ver, que o querem ver.

10 de novembro de 2013

como outras banalidades

sei o trânsito e todos os sinais vermelhos com que me irei cruzar no dia seguinte. sei o preciso momento em que a sombra no meu quarto será maior do que o pedaço de sol que atravessa as janelas. especulo sobre os capítulos seguintes do livro que leio, mesmo antes de lá chegar.
não sei a hora certa, segundos depois de ter olhado o relógio. não sei o que almocei ontem,nem o que o noticiário me disse há pouco. não me interessam os dizeres e os pensares sem fundamento, ou os dizeres e pensares mascarados de fundamento sem conteúdo algum.
sou, portanto, dessincronizada das banalidades.