21 de janeiro de 2015

devaneios distantes

a distância é crua e impeditiva, impossibilitando a partilha no presente, impedindo a partilha no futuro que sempre espreita na esquina mais próxima.
a distância deturpa as medições, é o tempo dessincronizado nos quilómetros que perdem fim à vista.
a distância é olhar o horizonte no mar e o tentar incessante no delimitar da linha - por muito que não a consigas alcançar e limitar, por muito que a tua visão deturpe o que vês, não desistes de o fazer e insistes - queres ver sempre mais longe.

não podemos considerar a distância estanque uma vez que pelo menos uma de duas conclusões resultarão dela: deixarmo-nos vencer e apagarmos o que está do lado de lá, ou aumentarmos desproporcionalmente os sentires, os gostares.



23 de novembro de 2014

o corpo que se faz casa

a casa sente-se viva pelos cheiros, pelas luzes acesas, pela roupa no estendal e pelo movimento que se sente ao olhar para ela, ao viver nela.
o corpo certo é a imagem, o reflexo, a fusão entre aquele que constrói e a construção efetiva - os alicerces e as paredes por si não falam nem vivem, só se deixam viver.
não se pode nunca dar por terminada a construção de uma casa com vida, podendo isto tornar o papel do arquiteto inglório. o mesmo se aplica ao corpo, de nada adianta um bacharelato, um mestrado e um doutoramento em anatomia, pois a partilha de experiências no corpo que se faz casa não depende apenas de quem é identificado (e escolhido), mas também de quem identifica (de quem escolhe) e nunca saberemos como o outro nos vê.
mas, à parte das visões deturpadas da realidade individual, é possível sentirmo-nos em casa num corpo exterior ao nosso enquanto fazemos, em simultâneo, do nosso corpo abrigo - e estamos perante uma casa de duas assoalhadas.

encontrar a casa num corpo não se trata de uma questão de arquitetura de espaço mas sim de uma questão de anatomia -  de corpo e calor.



 

20 de setembro de 2014

jogo das contradições



se em x se der o começo, e o fim chegar em z,  todas as pontes passarão pelo- equação simples,sem lógica transcendente necessária.

se o princípio surge em y, silenciam-se as pontes e os meios para atingir o fim em z. os fragmentos entre inícios e fins podem refletir-se em silêncios, no entanto, são um forte indicador de uma história pobre, sem  grande espaço para desvios e enredos.

z como início, meio e fim - acumulador de funções, espaço e tempo. ter em si todo o (des)controlo.

qual o melhor começo?aquele que é consequente do fim ou aquele que tem o fim como consequência?poupar no trabalho de pensar é negar, conscientemente, que se aprenda a pensar por si próprio.




9 de setembro de 2014

consecutivamente inconsequente

as boas vindas chegam já com a despedida no verso, em letras pequenas e no canto da página onde o dedo pousa.
quando se fala de boas vindas salientes e despedidas discretas o contexto nunca será uma luta de igual para igual.
os até já não obedecem a um padrão no tempo, podem medir minutos, horas, dias, semanas. 
de salientar que um até já elástico deve trazer sempre consigo recomendações de utilização, uma vez que esta ginástica temporal acaba, mais cedo ou mais tarde, por quebrar o elástico  temporalmente desgastado.
os compromissos são desfasados, sem harmonia.
o desfasamento conquista-se acertando o passo, mas a harmonia é imprescindível aquando da celebração de um compromisso, e deve ser, no mínimo, agradável ao ouvido.
às vezes, não meço as consequências.
na verdade, parece tratar-se de uma inconsequência crónica.


(fotografia . diana b.)







8 de setembro de 2014

cíclico


a corrente é forte mas a vontade aumenta,
a altura intimida mas a coragem não se atormenta,
a velocidade ultrapassa limites mas a adrenalina vence
o cansaço é bruto mas a meta a ele pertence.
a chuva cai,
o sol queima,
o vento agita,
e tudo o que vê é uma estrada sem fim à vista.
mas ele avança determinado e com firmeza,
avança encorajado após a finta das dúvidas com alguma destreza.


a corrente é forte e a vontade escasseia
a altura intimida e a coragem foge volta e meia
a velocidade ultrapassa limites e o medo espreita
o cansaço é bruto e a meta parece ter sido desfeita.
a chuva cai,
o sol queima,
o vento agita,
mas os passos continuam certos,
e ele avança, sempre convicto,
sem importar como, nem para onde
acreditando apenas que as adversidades formam os mais fortes.